SHIRLEI
MASSAPUST
COLUNISTA DO ADORÁVEL NOITE

A Maldição
de Sarah Ellen
Shirlei Massapust

Tudo começou quando a produção
do programa Cristina Show (Talk Show da apresentadora Cristina
Saralegui, apresentado na TV nos Estados Unidos) resolveu
reunir especialistas no tema para fazer um especial sobre
vampirismo. Durante o programa um dos entrevistados apresentou
analogias entre a história fictícia do Conde
Drácula e das três vampiras do castelo, do
romance de Bram Stoker, e a história real
de um homem chamado John Roberts, sua esposa Sarah Ellen
Roberts e suas duas cunhadas Andrea e Érika. Pela
acusação de bruxaria, magia negra e assassinato,
as três irmãs foram condenadas à morte;
porém, Sarah ameaçou voltar após 80
anos reencarnada numa bonita mulher[1]
a fim de vingar-se. Após a execução
de Sarah Ellen ocorrida em 1913 na cidade de Blakburn,
Inglaterra John Roberts viajou por vários
países tentando obter permissão para enterrar
os corpos. Érika foi enterrada na Hungria e Andrea
em algum lugar secreto do México. Sarah Ellen teve
de ser levada ao porto de Pisco, no Peru. Foi sepultada
no cemitério da cidade em 1917, quatro anos depois
de morta. O túmulo número 118
ainda existe e em sua lápide há uma dedicatória
gravada numa cruz: À minha adorada esposa Sarah
Ellen, nascida em 1872 e morta em 1913[2].
Jonhn desapareceu após o sepultamento de Sarah.
A história morreria aí caso
o programa não fosse traduzido e exibido com grande
sucesso no Peru, com o nome Show de Cristina. Quando a população
de Pisco na época com cerca de 50 mil habitantes
tomou consciência da promessa de ressurreição
formou-se um sentimento de expectativa. A mídia aproveitou
a bem-vinda excentricidade e explorou ao máximo a
maldição de Sarah Ellen, mantendo
vivo o interesse que tomava conta do povo. Como resultado,
três meses após a descoberta, todos aguardavam
a ressurreição da mulher vampiro[3].
A perturbação aumentou após descobrirem
a data exata do evento: 9 de julho de 1993.
Como se a própria natureza quisesse dar sua colaboração,
no início da semana marcada a lápide, até
então intacta, começou a rachar! Sinal
de mau agouro, segundo a crendice[4]: A mulher-vampiro
fugira em forma de névoa ou apenas começava
a quebra a casaca do ovo?

Cidadãos de Pisco
comentam sobre a rachadura no túmulo da vampira.
" Caricatura no jornal
A Notícia de 8 de junho de 1993."
Desde então foi uma romaria só
ao túmulo de Sarah Ellen. O local foi visitado por
centenas de curiosos vindos das diversas partes do país.
Na véspera, em 8 de junho, dezenas de pessoas já
se amontoavam em torno do túmulo com destaque
para um monte de mulheres vestidas de negro e usando argolas
vermelhas. Elas depositam flores e acompanham com cânticos
o som de violinos dos músicos que foram contratados
para o grande dia[5]. Entre os que levavam
a coisa a sério havia curandeiros, amantes do esoterismo
e caravanas que chegavam de todas as procedências
para rezar em conjunto e depositar flores para que
a mulher vampiro não saísse de sua cripta.
Câmeras de televisão foram instaladas no cemitério
e, por algumas semanas, a pequena Pisco esteve em todas
as TVs do planeta (no Brasil, o caso teve cobertura no Fantástico,
além de divulgação nos jornais A NOTÍCIA,
O GLOBO e na revista Incrível).

9 de junho de 1993. Pessoas
apontam cruzes para a lápide de
Sarah Elen repetindo em coro: "Coração
de Sarah Ellen descanse em paz".
Por medo ou fetiche, as pessoas começaram
a procurar avidamente pelas proteções clássicas
contra vampiros: Isso mesmo, comprem bastante alho!,
aconselhou um animado produtor de alho... Devido à
grande procura, em uma semana o alho dobrou de preço
na cidade. A maioria das casas de Pisco possuía réstias
de alho penduradas atrás das portas e estranhas ervas
amazônicas espalhadas pelos cantos[6].
A preferência era pelo alho macho (uma incrível
variedade peruana que produz dentes do tamanho de uma maçã).
Mais sofisticado, um empresário resolveu combater
o vampirismo da recessão peruana vendendo um Kit
ante Drácula que teve um sucesso estrondoso.
Por dois dólares e meio levava-se manual de instruções,
cruz, estaca e martelo de legítima madeira inglesa:
Toda esta madeira [foi] importada e não pode
ter nenhum prego; nada de metal. Segundo ele a ausência
de peças de metal era importante, pois somente assim
o kit funcionaria com eficiência. Também, a
freqüência nas igrejas cresceu repentinamente
e o número de missas subiu a nove por dia. Dom Ricardo
Durand, bispo do porto vizinho El Callao teve de pedir calma
aos fiéis e, em entrevista ao Fantástico,
o padre de Pisco Belinho reprovou a atitude das pessoas:
Depois de 80 anos ou Sarah Ellen está no céu
como santa ou embaixo, no calor.
Crendo ou não todos esperavam pelo
desfecho da ressurreição da mulher vampiro.
A gráfica da cidade transformou a maldição
numa história em quadrinhos: Sarah Hellen fue Nejor.
Uma editora anunciou para os próximos dias o lançamento
de um livro sobre O Lado Nobre e Amoroso de Sarah
Ellen[7]. Em 9 de julho a notícia foi
capa dos principais jornais: El Popular, Mulher Vampiro
Deja Mensaje a Espiritista; Notícias, Avalancha de
Perledista por Ressurecion de Sarah Ellen; El
Libertador, Todo el Peru a la expectativa. EL 9 DE JUNIO:
¿RESSUSCITARA LA MUJER VAMPIRO?; etc. Até
a mídia internacional divulgou o incidente. O fenômeno
era uma bênção econômica. Pessoas
compravam coisas para se informar, para se defender do sobrenatural,
para guardar de lembrança, para brincar, para tudo!
Câmaras de televisão foram instaladas cemitério.
No dia marcado, canais locais davam informações
sobre a vida da vampira enquanto em diversas cidades do
Peru o caso era acompanhado com muita atenção.
Emissoras de rádio transmitiam ao vivo do local todas
as novidades. No Fantástico, Paulo Henrique Amorim
descreveu cenas tomadas de helicóptero: Vista
assim do alto a pequena pisco até parece dormir em
paz. Mas lá embaixo... Exorcismo, estacas, cruzes
de madeira. Afinal, estamos no Peru ou na Transilvânia?
O túmulo de Sarah Ellen já havia
sendo visitado por caravanas que chegam de todas as
procedências para rezar em conjunto e depositar flores
para que a mulher-vampiro não saia da sua cripta[8].
Prevendo a possibilidade de profanação, as
autoridades aumentaram a vigilância no cemitério,
mas não conseguiram impedir a turba. Pisqueiros e
turistas invadiram o local, pisaram túmulos, derrubaram
lápides. Uma multidão amontoou-se no interior
enquanto centenas de pessoas esperavam o desfecho do caso
do lado de fora do cemitério.
Os visitantes trocavam receitas contra
mordidas enquanto um vendedor aproveitava os últimos
momentos para vender cruzes no meio da multidão.
Se houve vampiros no passado porque não existiriam
hoje?, resumiu um jovem à equipe do Fantástico,
mostrando sua cruz para defesa. Métodos inusuais
também estavam em voga. Quatro curandeiros
esperaram pela meia-noite diante do túmulo da mulher,
realizando estranhos rituais de limpeza[9].
Uma figura exótica atraiu todos os microfones. Tratava-se
de uma auto-proclamada feiticeira, jornalista e astróloga
nas horas vagas, que fazia orações e jogava
pétalas para o alto (esta, no dia seguinte, alegou
que ninguém deveria se preocupar, pois Sarah Ellen
reencarnou nela mesma na forma de uma vampira boa). O mármore
já estava enegrecendo de tanta fumaça de vela
quando um afoito jogou sangue na lápide, mas nada
aconteceu...

Lápide do túmulo
de Sarah Ellen manchada de sangue.
À zero hora local (3h de Brasília)
os locutores de rádio anunciaram que a maldição
não se cumpriu[10]. O público
bateu palmas enquanto o coveiro, já bêbado,
continuava bebendo cerveja. Para os mais crédulos
o fato de Sarah não ter terminado de
explodir a lápide não significava grande coisa:
Os místicos afirmam que o caso não
está encerrado e que a maldição continua
latente... Ninguém pode se sentir tranqüilo
ante a ameaça de Sarah Ellen[11].
Temendo que Sarah Ellen decidisse reencarnar numa nova vida,
ao invés de levantar dos mortos, muitas grávidas
fizeram força para que o bebê não nascesse
na noite maldita (segundo a ginecologista do hospital de
Pisco o número de partos naquela noite caiu para
menos de um terço).
Como último grito, nas últimas
horas a Prefeitura de Pisco decidiu decretar 9 de julho
como Dia do Reencontro dos Almas pela Paz, em
homenagem a Sarah, bem como entrar em contato com as autoridades
de Blackburn para irmanar as cidades[12]. Edgar Nufiez,
o prefeito, prometeu entrar em contato com as autoridades
britânicas para exigir um desagravo â
memória de Sarah Ellen, cujo enterro não foi
permitido na Inglaterra. Ao amanhecer Nunes surgiu com uma
coroa de flores para depositar no túmulo e, empolgado
com o público que novamente invadia o cemitério,
anunciou que Sarah Ellen tornou-se cidadã pisqueira,
patrimônio da cidade, marco do progresso que ainda
há de vir... A bandinha improvisada tocava um hino
religioso... Impressionada com a distante e impalpável
possibilidade de que Pisco pudesse estabelecer um vínculo
com a Inglaterra, uma senhora exclamou que Sarah é
uma santa. Afetada pela mesma ilusão, outra
empolgava-se: Agora vão olhar para nós!.
Contudo, tais argumentos não foram capazes de sustentar
a lenda que partindo daí caiu no esquecimento,
levando consigo a esperança de ressurreição
econômica daquele lugar onde o desemprego e a miséria
que castigavam mais da metade da população.
Bibliografia:
Mulher do Drácula está pronta
para ressuscitar. In: A Notícia. 8 de junho de 1993,
p 5.
Mulher-vampiro enterrada no Peru pode ressuscitar.
In: A Notícia. 9 de junho de 1993.
Vampira deixou o Peru na mão. In:
A Notícia. 10 de junho de 1993, p 6.
Incrível, n º 13. Agosto de
1993. Bloch, p 48. (Contém uma nota sobre o caso
de Sarah Ellen).
Nota: Com exceção da caricatura
do jornal A Notícia, as imagens que ilustram este
artigo foram capturadas da matéria do Fantástico
usando placa ATI e tratadas em Photoshop.
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[1] Mulher-vampiro enterrada no Peru pode
ressuscitar. In: A Notícia. 9 de junho de 1993.
[2] Mulher do Drácula está pronta
para ressuscitar. In: A Notícia. 8 de junho de 1993,
p 5.
[3] Gradativamente, a lenda ganhou terreno
e atravessou fronteiras. Em 1998, recebi uma carta de um
amigo, Ronaldo Baptista, relatando: Minha namorada
levou um susto quando leu o que você escreveu sobre
Sarah Ellen. O pai dela era cônsul, e sua família
morava na Bolívia. Em 1993, houve por lá também
uma grande agitação. As crianças falavam
de Sarah Ellen como numa espécie de bicho-papão.
[4] Mulher do Drácula está pronta
para ressuscitar. Obra citada.
[5] Mulher do Drácula está pronta
para ressuscitar. Obra citada.
[6] Mulher-vampiro enterrada no Peru pode
ressuscitar. Obra citada.
[7] Não consegui descobrir se a edição
foi realmente levada a cabo.
[8] Mulher-vampiro enterrada no Peru pode
ressuscitar. Obra citada.
[9] Vampira deixou o Peru na mão. In:
A Notícia. 10 de junho de 1993, p 6.
[10] Vampira deixou o Peru na mão.
Obra citada.
[11] Vampira deixou o Peru na m&atil
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de;o.
Obra citada.
[12] Vampira deixou o Peru na mão.
Obra citada.